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Esporte: Porque eu quero as olimpíadas de 2016

 

Tatiana Bruzzi - editora tatibruzzi@yahoo.com.br  

 

             Recentemente o Rio de Janeiro foi escolhido sede das Olimpíadas de 2016. Mas é válido dizer que nada veio fácil. Antes dessa candidatura, a cidade já havia tentado outras duas vezes. Todas em vão. Organização, espírito esportivo e de equipe foram essenciais para essa conquista. 

            A campanha pelos jogos olímpicos precisou de muito empenho por parte de seus dirigentes. Melhorias para a cidade em termos de segurança, transporte e comodidade, fizeram parte do projeto lançado. Assim como a promessa de novas instalações e equipamentos. Era preciso mostrar que um país humilde tem capacidade de realizar grandes eventos como outro qualquer.

            Após a confirmação favorável a cidade brasileira, surgiu opiniões adversas. De um lado, há os que se sentiram orgulhosos pela conquista. Brasileiros, cariocas ou não. De outro, os que acreditam ser um investimento momentâneo e desnecessário. Investimento esse que deveria ir para outras modalidades, como saúde e educação.            

            O sonho de sediar uma olimpíada começou a ser lapidado graças ao Pan de 2007, realizado aqui. A competição, que requer muitos investimentos como qualquer outra do gênero, nos proporcionou subir alguns degraus rumo ao pódio. Tendo segurança, organização e voluntariado como pontos favoráveis. Também foi graças ao Pan-americano, que entramos na briga pela Copa de 2014. Briga essa que vencemos. E quem agradece é o nosso Maracanã, que abrigará a final.  

            Diante disso, e levando em consideração a pequena polêmica que se criou em cima do Rio 2016, sou obrigada a levantar uma questão. Quando se falou na Copa do Mundo em terras brasileiras, não vi ninguém questionando a respeito da defasagem no campo educacional, muito menos da saúde. Não se falou em segurança, nem na falta de transporte. Desemprego então, passou longe. Mas é claro que temos uma justificativa plausível. Somos o país do futebol.

            O investimento para se realizar uma olimpíada é grande, ninguém duvida. Nosso país vai precisar desembolsar um bom dinheiro, se quiser arcar com todas as promessas. Mas antes de pensar em desperdício, é preciso creditar nas melhorias a longo prazo.

            O projeto original prevê extensão nas linhas de transporte, aumento do policiamento nas ruas, crescimento da rede hoteleira, mudanças na grade curricular da rede pública, além de obras feitas nos locais de competições.

            A princípio muitos vão achar que tudo isso não passa de desperdício do dinheiro público, quando na verdade são investimentos significativos. Mudanças que contribuem para o lado estético e habitacional proporcionam crescimento e desenvolvimento. Já que melhorias na qualidade de vida em cidades turísticas representam aumento de visitantes e, consequentemente, movimento de dinheiro.

            Outro fator favorável será a geração de empregos, que também virá a longo prazo. Principalmente nos setores de construção civil e hoteleiro. E esse reflexo já está sendo observado, com mudanças e adaptações de empresas e profissionais da área de turismo.  

            Por fim, mas não menos importante, a geração de novos atletas. Chega de talentos desperdiçados. Quantos já deixaram de ir a uma olimpíada por falta de patrocínio? Sendo realizada aqui o passaporte fica muito mais fácil.

            É chegada à hora de se conscientizar que o esporte não é somente futebol. Acreditar em nossos jovens, descobrir novos talentos e levá-los da rua direto para as quadras, pistas, tatames, piscinas e também gramados. O lance foi feito, a nós só resta cobrar.     

 
 

Balzaquianas na berlinda

 

 Maria Oliveira - redatora mariinhaoliveira@yahoo.com.br  

 

Em 1841 o escritor Honoré de Balzac preparou uma edição de “Obras completas”, sob o título A comédia humana, para espelhar a imagem da sociedade francesa do século XIX. Entre os romances dessa vasta obra, “A mulher de trinta anos” ficou tão famoso que, até hoje, o termo balzaquiano é aplicado para lembrar mulheres com a mesma faixa etária das personagens do livro de Balzac.  

Crítico do então capitalismo-burguês, a modernidade de sua obra está em apontar para uma sociedade possuída pela ideia do poder do dinheiro e do consumismo exacerbado.  Nesse contexto, circulam as mulheres que inspiraram o escritor a compor um perfil fiel das personagens femininas em busca da sensualidade e do amor em plena idade madura.

            Pela ótica do escritor, as mulheres quando chegavam aos trinta anos se angustiavam porque se sentiam menos bonitas, logo menos cobiçadas. Balzac, no entanto, valorizava os desejos delas e discutia abertamente os problemas íntimos de casamentos fracassados. Para época, foi uma leitura que causou escândalo pelo pioneirismo do autor em desnudar o pensamento feminino. De lá para cá, as balzaquianas tornaram-se símbolo do ápice da sensualidade - e sabem disso -, mas não querem perder a juventude. Não é à toa que elas lotam academias, em busca da boa forma, e se transformaram em alvo fácil para profissionais especializados em estética.

Essa busca desenfreada, pela forma perfeita, pode trazer benefícios ou não.  Estatísticas mostram que o Brasil é o segundo maior consumidor de botox do mundo, na frente da França e de outros países com poder aquisitivo maior do que o nosso. Diferentemente das brasileiras, que já estão usando a toxina botulínica antes dos trinta, as européias acham natural envelhecer. Quando o procedimento resulta em bem-estar, autoestima elevada, tudo bem. Entretanto, especialistas advertem que só o médico define onde deve ser aplicado o produto. Caso contrário, podem ocorrer infecções, hematomas, dor e a difusão da toxina do local da injeção para musculaturas adjacentes.

No plano psicológico, o problema se agrava. Os analistas que o digam, pois não para de crescer o número de balzaquianas que vão ao consultório queixosas de que, “com aquela idade”, não arranjaram um amor duradouro. São em geral mulheres bem-sucedidas no trabalho, independentes, mas insatisfeitas. Já puseram silicone, malham todos os dias e não sabem por que não são desejadas como gostariam. Quando não recorrem a especialistas, fazem da Internet o meio mais seguro para se aproximar de alguém, sem envolvimento imediato. Embora no romance de Balzac os sentimentos se expressassem de forma velada, havia um arrufar de toques das mãos nos salões. Hoje, os sites de relacionamento estão aí para compensar essa carência presencial, abolindo o medo de assumir desejos contidos. 

Essa insatisfação da mulher, revelada nos divãs de analistas, tornou-se tema constante de publicações escritas por especialistas na área. O psicanalista Alberto Goldin, por exemplo, publica, a cada domingo, na Revista “O Globo”, um artigo respondendo às cartas dos leitores. Entre os artigos um, publicado em 26 de julho de 2006, me chamou especial atenção pelo título: “Uma decisão solitária”. Trata-se de uma carta enviada por uma mulher de 30 anos, casada há oito, cujo nome foi preservado. No texto ela dizia que, durante o namoro, o marido a traiu muitas vezes, mas que depois do casamento ele passou a viver exclusivamente para a família. Revela nunca tê-lo traído, mas confessa que está se relacionando com um homem pela Internet e pensa em se encontrar com ele, mas precisa terceirizar sua decisão.  A resposta do psicanalista foi filosófica: (...) “todo ser humano, sem exceção, encontra-se só diante de seus desejos e ainda mais só com suas responsabilidades. Moral, religião e tradições oferecem pacotes de soluções que aliviam, mas não resolvem. Cada um precisa percorrer seu próprio caminho”.

Diante desse aconselhamento médico, a conclusão a que chegamos é muito simples: Em qualquer fase da vida, seja pré ou pós-balzaquiana, crises acontecerão. O importante é que a mulher saiba manter acesa a emoção de buscar no trabalho ou no lar a fórmula mágica de ser feliz. Desejar não significa realizar, mas oxigena o cérebro e o coração. Balzac, por exemplo, desejou por toda a sua vida a condessa polonesa Eveline Hanska e só conseguiu a desposar nos últimos dias de sua vida, já doente. Mas essa paixão o impulsionou a escrever sobre as mulheres de trinta e decifrar seus segredos mais íntimos.

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